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[Crítica] Presença: O caleidoscópio assombrado de Steven Soderbergh

Foto do escritor: Pietra VazPietra Vaz

Comprei um caleidoscópio no último final de semana. Eu nem sequer via um desses há anos, então fiquei muito animada. Sentei no sofá, apontei o caleidoscópio para a luz e brinquei por um bom tempo, vendo os mosaicos girarem conforme minha mão o movia. Acho fascinante como um espetáculo infinito é formado a partir de apenas algumas miçangas e pedrinhas girando no espelho. O mesmo material, quando organizado de forma um pouquinho diferente, já forma um padrão visual totalmente novo. Existem ali elementos em comum, mas o rearranjo é tão diverso que mal se percebe a semelhança – ou, quem sabe, a semelhança esteja na diferença. Estou, sim, falando do caleidoscópio, mas também da filmografia de Steven Soderbergh.


Soderbergh é um cineasta estadunidense que chama atenção por fazer de tudo um pouco. Pense num portfólio diverso: saímos de Sexo, Mentiras e Videotape (1989), passamos por uma peculiar biografia de Kafka (1991), pulamos para Onze Homens e Um Segredo (2001), viajamos até o espaço com Solaris (2002), sentimos cheiro de álcool em gel com Contágio (2011), tiramos a roupa com Magic Mike (2012) e, por fim, somos internados involuntariamente em um hospital psiquiátrico em Distúrbio (2018) – adoro esse.


Agora, em Presença (2025), o prolífico diretor nos convida a entrar em uma casa mal-assombrada. Esse é um subgênero do horror cheio de clichês incontornáveis e, por isso, o filme poderia muito bem passar batido. Contudo, o roteiro de David Koepp, junto com a mexidinha que Soderbergh faz em seu caleidoscópio de experimentos, torna a obra muito interessante. Seu diferencial, que tem deixado a fiscalização de Letterboxd curiosa, é o fato de o filme ser contado na perspectiva de um fantasma.


Tudo começa com Julia Fox como uma corretora de imóveis, ela abre as portas de uma linda casa antiga, mas reformada com a modernidade na medida certa, para uma família em busca de recomeço. Na verdade, o recomeço parece ser ideia apenas de Rebekah (Lucy Liu), a mãe que protege o primogênito Tyler (Eddy Maday) a qualquer custo, sendo que seu marido Chris (Chris Sullivan) e a caçula Chloe (Callina Liang) apenas acompanham o fluxo. Logo no início, entendemos que a mãe tem um filho favorito, que o pai tenta segurar as pontas, e distinguimos as personalidades dos dois adolescentes. A dinâmica familiar é apresentada de forma tão evidente que se torna até meio repetitiva.



A casa para a qual eles se mudaram, porém, não estava vazia: já estava lá, morando no que se tornaria o armário do quarto de Chloe, a presença que dá nome ao filme. Essa presença nada mais é do que um fantasma, ectoplasma puro, que, muito confuso, vive em seu tempo próprio tentando entender e cumprir sua missão. Um aspecto formidável do filme é que, apesar de a filha notar o fantasma antes de todos e acabar gerando desentendimentos ao tentar falar sobre a possível assombração, aqui não ocorre o clichê de todos perceberem que a casa tem uma assombração apenas quando é tarde demais. Quando a família toda vê que Chloe estava correta, na verdade, há uma cena engraçada e comovente, e ainda tem muita água para rolar.


Visualmente, o filme é todo lindo. É também um deleite ver a ex-pantera interpretando uma mulher egoísta e controladora – women's stories matter! –, especialmente ao lado de Chris Sullivan, que em muitos momentos parece interpretar a si mesmo, mas seu carisma é tanto que vale a pena. A performance dos filhos, contudo, é estranha aos olhos. É um problema que não se restringe à atuação dos jovens atores, mas que parece ser oriundo especialmente do texto. A impressão é de que houve uma preocupação em criar uma representação fiel de adolescentes de hoje em dia, mas chamaram millennials para ajudar a escrever personagens da geração Z, talvez até da geração alpha. O resultado são dois adolescentes que se aproximam de caricaturas de estereótipos jovens, artificialmente desenvolvidos: a irmã frágil e artística, mas que quer ser descolada; e o irmão atlético e insensível, que só pensa em si mesmo.


É verdade que, em parte, essa falta de profundidade vem justamente do maior atrativo do filme: por acompanharmos as visões do fantasma que vive na casa, ficamos à mercê daquilo que ele acha importante. Há algumas questões que parecem ser interessantíssimas no meio da história, como um possível crime cometido por Rebekah, mas o fantasma não se importa com essas bobagens mundanas a ponto de ver – e, consequentemente, nos mostrar – o desenrolar disso. Ao mesmo tempo em que é intrigante notar, em retrospecto, como o fantasma se interessa especialmente por coisas que se conectam com o porquê de ele estar ali, é frustrante lidar com as pontinhas intencionalmente soltas envolvendo os pais, que são os personagens mais envolventes do filme.



No fim das contas, Presença é muito mais um drama familiar com aspectos sobrenaturais do que um filme de terror propriamente dito. Vê-lo no cinema é algo bastante imersivo, mas longe de ser assustador – diferentemente do que dizem os trailers, pôsteres e toda a campanha de divulgação do filme. É possível antecipar a decepção de muitos espectadores que, esperando arrepios gelados, receberão experiências mornas.


Se a filmografia de Soderbergh forma mesmo um cinema da disparidade, como observa Ivo Ritzer na publicação coletiva The Philosophy of Steven Soderbergh (2011), sua coerência está na divergência de tudo o que ele consegue construir partindo de um mesmo ponto. Essa ânsia por explorar de tudo um pouco tem um preço alto, e há mais de dez anos o diretor vem denunciando os horrores que a indústria cinematográfica inflige no cinema enquanto arte, tolhendo a criatividade.


Em Presença, ele consegue experimentar e brincar com a linguagem do filme, mas a disparidade que vem junto com sua assinatura acaba sendo embutida na própria obra: há exuberância e inventividade, mas de forma diluída e heterogênea. O filme se abre tanto que, no fim, acaba não conseguindo se fechar, e falta consistência em sua própria unidade. Mas, ainda assim, pela peculiaridade da forma como tudo é construído e pela simples beleza de ver o cinema sendo feito por quem o ama, vale a pena aproveitar enquanto está em cartaz.



 


PRESENÇA

2025 | EUA | 1h 25m

Direção: Steven Soderbergh

Roteiro: David Koepp

Elenco: Lucy Liu, Chris Sullivan, Callina Liang e Julia Fox.

 
 
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